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O PAINEL DE SÃO FRANCISCO

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Estávamos em 1888 e a crescente romaria demandava uma igreja mais ampla e confortável. Naqueles idos, vivíamos sob a égide da “Lei do padroado”, onde os bens do padroeiro eram administrados pela Mesa Regedora da Confraria de São Francisco, na pessoa de um procurador eleito por esta que tinha o título de “Fabriqueiro e Zelador das Alfaias de São Francisco”, que prestava contas anualmente a um Juiz de Capelas.
Todas as despesas passavam obrigatoriamente pela Mesa Regedora, e uma obra de grande magnitude cabia ao próprio procurador de São Francisco – que à época era o probo Capitão Clementino Fineás Jucá – administrar o serviço. O vigário então, Pe. Alexandre Correia de Melo, de uma planta para a nova igreja, cuja autoria ignora-se, solicitou ao Bispo D. Joaquim Jose Vieira que transformasse, provisoriamente, a Igreja de Nossa Senhora das Dores em Matriz, para que os festejos de São Francisco não fossem interrompidos enquanto durasse a construção.
As obras começariam logo após os festejos do Pai Seráfico daquele ano, quando haveria, antes de se iniciar o serviço, a prestação de contas da Mesa ao Juiz de Capelas, Dr. Elpídio Jose de Carvalho, referente ao exercício anterior. Uma querela de natureza política entre a Mesa Regedora e o dito juiz acirrou-se a ponto de quase se transformar em tragédia no momento em que a imagem de São Francisco ira ser trasladada da Igreja de N. Sra. das Dores. Uma oposição armada ligada a confraria não permitiu que a imagem saísse do seu altar, que foi lacrado e a reforma foi executada com ela enclausurada. O Pe. Alexandre, muito revoltado com a situação, renunciou ao cargo de vigário.

Com a renúncia do pároco, coube em primeiro lugar ao Bispo D. Joaquim Jose Viera buscar a paz e a conciliação. Para tanto, mandou a Canindé uma missão religiosa, tendo à frente Frei Cassiano Camacho e Frei Clemente de Lonissa, que conseguira apaziguar parcialmente os ânimos.

A pacificação total se deu com a nomeação do Pe. Manuel Cordeiro da Cruz, o primeiro e único, até a presente data, canindeense vigário da Paróquia de São Francisco das Chagas de Canindé. Ao assumir o cargo, o novo vigário buscou selar a paz em definitivo, o que conseguiu, por conta do seu carisma pessoal e pelos laços familiares.

O Pe. Manuel Cordeiro da Cruz é a figura mais emblemática da história de Canindé, notadamente na transformação de uma pequena romaria em uma gigantesca; não é exagero se dizer que ele está para Canindé como o Apóstolo Paulo está para o cristianismo. Um homem de visão cosmopolita, era um estudioso dos fenômenos das romarias, era um homem viajado e sequioso por informações sobre os santuários do Brasil e do mundo, em suma, entendia bem o processo de religiosidade e funcionamento das cidades-santuário.

Dois anos depois de intensos trabalhos, eis que os trabalhos da reforma foram concluídos. A igreja primitiva da lavra de Francisco Xavier de Medeiros foi transformada em uma linda igreja em estilo barroco, e foi reabilitada em 24 de setembro de 1890, quando os festejos do padroeiro, que já foram realizados na nova matriz. Convém notar que a obra iniciou no Governo Imperial e foi concluída no Governo Republicano.
O visionário vigário tinha uma surpresa especial para os visitavam a terra de São Francisco naquele ano. Mandara vir da Bahia o majestoso painel de São Francisco, o mesmo que é reverenciado ainda hoje e que abrilhanta as procissões, e durante todo esse tempo teve somente a estampa mudada em razão do desgaste natural. Anteriormente só havia a procissão do “dia de São Francisco”, 4 de outubro à tarde, com a imagem primeira, a quem os romeiros dedicam mais confiadamente seus votos e chamam carinhosamente de “São Francisquinho”, tradição ainda hoje mantida.

Na época da primeira procissão com o painel ainda não tínhamos iluminação elétrica, mesmo assim, desde aquele ano a procissão passou a ser no início do crepúsculo vespertino, após o encerramento da novena, graças a uma providência adotada pelo vigário. Ele mandou confeccionar mais de uma centena de lamparinas que, abastecidas com óleo de carrapateira (mamona) passou a iluminar o pequeno arruado onde a procissão passava. Por conta disso criou-se até o hábito dos romeiros de presentear o santo padroeiro com cabaças de óleo para abastecer as luminárias do painel.

O Painel de São Francisco foi uma novidade a partir de 1890 que se transformou em tradição consagrada pelo romeiros e devotos de São Francisco. Registre-se que a intenção do Pe. Manuel Cordeiro não era apenas uma novidade, ele havia percebido que a grande maioria dos romeiros fazia uma promessa para assistir a uma novena e a uma procissão. Como havia somente a procissão do dia do encerramento, a minúscula cidade recebia um contingente enorme de pessoas sem a menor estrutura para acomodação. Na sua mentalização visionária, havendo diariamente novenas e procissões durante os festejos, os romeiros se diluiriam durante o período e a condições de acomodação e prestação de serviços, seriam imensamente mais satisfatórias.

No ano de 1980, o Painel de São Francisco foi mais uma vez restaurado: a pintura do rosto, das mãos e dos pés ficaram a cargo do artista-plástico Lisboa. O restante do serviço, substituição do pano de fundo, roupas, costuras e bordados ficaram a cargo das Sras. Maria Vieira e Raimunda Dias. Ambas eram solteiras e faziam parte da Congregação das Filhas de Maria.

Neste ano de 2019, ano que o Painel de São Francisco completa 129 anos, surge mais uma novidade, fadada a transformar-se em mais uma tradição. Fruto da boa vontade de membros da comunidade católica local e com o aval do Reitor do Santuário, Frei Marconi Lins. Há poucos anos, surgiu de forma espontânea um grupo de pessoas que se uniram em um ideal comum e fundaram informalmente uma fraternidade que se denominava “Amigos do Painel”. Este crescente movimento ganhou fôlego e transformou-se, este ano, em uma confraria religiosa que recebeu o nome de “Guardiões do Painel”, uma espécie de guarda de honra encarregada de zelar durante o ano inteiro e estar presentes nas procissões, transportando esta relíquia, sem esquecer de sempre dar prioridade na condução aos romeiros, cuja fé inabalável no santo padroeiro é a maior razão de ser da existência deste Santuário Franciscano.

Augusto César Magalhães Pinto
Setembro de 2019

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